Acampamento Pedagógico?

Os acampamentos já existem há mais de um século em todo o mundo e tem alguns registros datados de 1861, nos Estados Unidos da América (USA). No Brasil esta ação é bem mais recente e a primeira delas é de 1927 através da Associação Cristã de Moços – ACM. Entretanto, na Região (Nordeste) este movimento não é muito conhecido e identifica-se algumas ações datadas de 1971 – Acampamento Palavra da Vida – transformando esta proposta pedagógica muito recente e difícil de entender. Quebrar este paradigma é um grande desafio, pois a maioria das pessoas não conhece esta importante ferramenta como recurso educacional e para muitos “acampar” ainda significa simplesmente viver ao ar livre ou cuidar da casa num ambiente natural, sugerindo a vida em barracas, cabanas, dormindo no chão e vendo as estrelas.

Na realidade, esta proposta essencialmente educacional diferenciada vai muito além dos conteúdos pedagógicos aplicados pela escola e cobrado pelas famílias. Percebe-se claramente que as escolas estão aquém de uma pedagogia do brincar com suas grades curriculares repletas de tarefas numa perspectiva futura, já de preparação para o mercado de trabalho, com a falsa impressão de que, ao usar o tempo ocioso para atividade lúdica, a criança estará perdendo tempo e, muitas vezes, os adultos tentam dirigir e enquadrar esse “tempo ocioso” com atividades que parecem lúdicas. “Na verdade, as atividades muito dirigidas inibem a capacidade de criar, fundamental para o desenvolvimento psíquico. Esse espaço ocioso é importante para iniciativa, espontaneidade, liderança, criatividade”. (Psicanalista Vera Iaconelli – 2006).

Os Acampamentos Pedagógicos, em sua grande maioria, têm uma proposta filosófica voltada para uma formação holística embasada nos quatro pilares da educação, valorizando de forma significativa as competências e relações humanas. Trazendo a importância desta atividade para a formação de crianças, jovens e adultos saudáveis é que identifica-se que seu principal instrumento de transformação é a brincadeira, que é através do ato de brincar que descobre-se o seu eu e que somente o brincar produz uma experiência cultural e verdadeira como diz Winnicott (1975), percebe-se, então, a contribuição que os Acampamentos Pedagógicos têm na formação das crianças e jovens em parceria com as escolas e famílias.

Na atividade lúdica a criança vivencia o mundo de forma plena, descobre o seu corpo e traz para dentro do seu universo sua realidade através de experiências de perdas, alegrias, conquistas, decisões, refletindo e construindo o seu aprendizado. Pode-se dessa forma estabelecer com muita propriedade que a brincadeira é, sem dúvida alguma, a melhor metodologia para educar/transformar crianças, pois por meio delas constrói-se e reconstrói-se a todo o momento papéis, funções e ações, refletindo sobre o cotidiano, além de ampliar a linguagem, estabelecendo novos conceitos e criando novas relações com os outros, a partir de um simples jogo onde há regras, vencedores, ganhadores, possibilidades e desafios a serem vencidos.

Dentro dessa perspectiva, identifica-se que os Acampamentos Pedagógicos exercem uma ponte fundamental nas relações entre a escola e o brincar, pois utiliza a ludicidade como instrumento de aprendizado, quebrando o enorme paradigma entre obrigação e prazer. Pode-se ainda reforçar este pensamento através da Constituição Brasileira que em seu artigo 227 de 1988, afirma que a família, assim como a sociedade e o estado, são os seus principais responsáveis para garantir com prioridade máxima o direito à vida a todas as nossas crianças, e ainda vale a pena citar um pequeno trecho da “Carta do Lazer” que está na Declaração dos Direitos da Criança de 1959:

A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras, os quais deverão estar dirigidos para a educação; a sociedade e as autoridades públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito”. (Declaração dos Direitos da Criança, 1959, p. 82).

Acreditando ainda que a educação pode ser encarada como uma proposta vivida e uma grande aventura, os acampamentos

tornam-se ambientes perfeitos para essa experiência, desenvolvendo habilidades, valores, conhecimentos, aprendizado, criticidade, comprometimento e uma diversidade de atividades, construídas pelo prazer e pela brincadeira, que é sua principal linguagem para adquirir novas situações e criar outras regras, desenvolvendo vários aspectos sociais, emocionais, cognitivos, motores e trazendo o mundo simbólico para bem perto, ao mesmo tempo não se desfazendo do real.

Rose Jarocki, Msc

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